"Não existem mentiras que sobreponham a verdade.  A verdade não se oculta ou precisa de disfarces, reluz como a luz que irradia do sol, mas é ousada para só se revelar a quem a busca." [...]

          Quando criança, creio ter completado a coleção de travessuras que uma criança poderia fazer. Todo tipo imaginável, e o inimaginável eu improvisava. Agitava-se dentro de mim uma vontade de movimento, uma energia da qual não conseguia me desvencilhar, algo que queimava e não havia o que conseguisse reter. A unica forma de acalmar a energia que explodia dentro do meu peito era modificando o espaço ao meu redor.
          No topo de um pilar de concreto, de cerca de 10m de altura na área externa da casa dos meus avós maternos, se encontrava a caixa d'água que abastecia a familia. A água era enviada para a casa através de um cano que percorria toda coluna até adentrar o chão. Proximo dela, estava eu. Deitado abaixo de um grande pé de acerola, entediado, com minha cabeça a todo vapor criando ideias para  minha ociosa tarde.
           A casa, sempre movimentada, dessa vez estava silenciosa. O estilingue, presente do meu avô , feito de uma forquilha de goiabeira brilhava no canto da parede. De uma hora para outra, ele estava municiado com uma pedra oval, com aerodinamica perfeita. Mirei com toda pericia para a ponta mais alta do cano, e soltei o couro no qual a pedra repousava. Por sorte, ou azar, a pedra foi lançada exatamente para o alvo. 
          Assim que o atingiu, um jato de água começou a vazar e molhar todo chão a minha volta. Eu, feliz com a pontaria mas com medo das palmadas que eu levaria quando descobrissem meu feito, corri e me escondi no canto mais alto, da arvore mais alta que havia por perto. 
          Não preciso dizer que a reação dos meus avós e pais ao se molharem com a água que cascateava da torre não foi de me parabenizar e me abastecer de chocolate. Mas preciso dizer que hora nenhuma foi formulada outra hipótese de quem havia feito o que tinha sido feito, se não eu.
         O estilingue existia, minha ficha de peripécias não era uma das mais limpas, a criança estava sozinha no quintal, e havia um furo no cano na parte mais alta que não existia e agora começou a existir. Minha familia não conhecia muitas especies de aves que bicavam canos pela região, então não havia outra explicação, eu era o culpado. Logicamente.
          A exceção não é a regra. A verdade estava exposta, gritava com um silêncio ensurdecedor e só não a enxergava quem não gostaria. Não estava escrita, por que é muda, mas estava mais clara do que se impressa em algum papel. Não havia testemunhas, gravação de video ou nenhuma prova cabivel, apenas os fatos para serem tecidos e costurados usando as linhas da lógica e bom senso.